Você está em Entrevista com Rubinho, dentro da página de Reportagens.
Links disponíveis:
Entrevista com Rubens de Almeida Prado (Rubinho) em agosto de 2000.
Em entrevista exclusiva à Brasil Fishing, Rubens de Almeida
Prado, o "Rubinho", fala como começou no fascinante esporte
da pesca esportiva, de suas preocupações com o meio ambiente,
suas atividades atuais, seus planos e muitos conselhos importantes para quem
quer se dedicar à pesca esportiva com o mesmo amor e encanto que Rubinho
dedica ao esporte.
Conhecido por grande parte dos pescadores de todo o Brasil, nascido em São
Paulo e criado em Jaú, valoriza a vida interioana. Atualmente tem suas
atividades centralizadas na pesca esportiva através do projeto "Pescaventura".
B.F. - O que você fazia antes de se dedicar a pesca esportiva?
Rubinho - Eu sou economista formado pelo Mackenzie e trabalhei muitos anos
no mercado financeiro. Primeiro na Swift-Armour por 2 anos e depois no City
Bank por 14 anos, saindo depois para a pesca esportiva.
B.F. - Como foi seu início na pesca esportiva?
Rubinho - Tudo começou em 1985. Até então
nada tinha a ver com a pesca esportiva, mas com a aproximação
de amigos que pescavam, comecei a gostar também e aí despertou
toda aquela vontade de pescar, se tornando um hobby para mim até 90.
Um hobby forte, onde me envolvi muito; estudei, viajei, até que, em
90, surgiu a oportunidade com um amigo que tinha uma relação
com uma TV que estava surgindo naquele momento, a rede OM, e a gente teve
a idéia de fazer um programa para a televisão.
Era uma coisa meio de brincadeira naquele momento. A primeira idéia
era uma tradução de programas americanos, mas daí resolvemos
fazer uma tentativa de um programa nosso, mesmo; a coisa foi caminhando devagarinho
e acabou dando certo.
B.F. - Nessa época havia algum programa na televisão brasileira?
Rubinho - No Brasil, naquele momento, que eu me lembre, não havia nada; o nosso foi realmente o pioneiro.
B.F. - Na sua opinião, qual o peixe mais briguento, aquele que
dá mais emoção?
Rubinho - Eu acho muito difícil você traduzir um peixe como o melhor. Cada espécie tem algum momento que é muito especial e a gente espera sentir, procurar interpretar aquele momento como único. Por exemplo, um dourado de água doce, é uma coisa espetacular num dia de sol; a corrida de um marlin, depois que ele abocanha a isca é uma coisa que não há nenhuma adrenalina igual. Um tucunaré numa isca de superfície, a descida de um pintado ou de um pacu com a isca na boca para você tomar a decisão da fisgada, a sutileza de um black, a voracidade de uma anchova, enfim, cada peixe tem o seu momento muito nobre. Outro exemplo é o robalo e o momento de risco que você tem com ele em função do manguezal, com paus e cracas. Então, eu acho que cada peixe tem a sua hora e é difícil você dizer que um peixe é o mais completo. Posso até arriscar um peixe: o tucunaré - talvez um peixe símbolo da pesca esportiva no Brasil - é um peixe fácil, todo mundo consegue pescar, é alegre, divertido, agressivo, e briga bem e tem diversas espécies no Brasil, mas seria injusto com as outras espécies.
B.F. - De todas estas espécies, qual é a mais "manhosa"?
Rubinho - Para mim o peixe mais manhoso que nós temos, é o robalo. Longe dos outros, é o peixe que exige mais conhecimento, que demanda o maior acerto de variáveis, é um peixe bastante complicado. Não o pequeno, mas o robalo grande é extremamente difícil de pegar.
B.F. - Qual foi a sua melhor pescaria?
Rubinho - Tenho pescarias extraordinárias em minha vida; é difícil citar uma em particular. Uma coisa que me marca sempre, é a primeira vez que pego uma espécie nova: o primeiro marlin azul foi fantástico, o primeiro filhote, o piraíba foi extraordinário, a primeira cachara grande, todo peixe que é o primeiro, que você não conhece, é uma novidade, você não sabe como ele vai brigar, é sempre uma emoção muito grande! Teve um peixe, por exemplo, em Comandatuba, que foi um atum muito grande e que eu demorei quatro horas e meia brigando. Foi o maior atum que peguei, um momento muito especial; estava com um equipamento muito leve, demorei quase três horas para saber qual era o peixe. Eu imaginava que pudesse ser um atum mas não o tinha visto ainda, então eu naveguei na imaginação de que peixe pudesse ser aquele.
B.F. -Qual foi sua pior pescaria?
Rubinho - Tive várias pescarias em que não aconteceu nada. Pescaria
você nunca domina por completo, por melhor que você esteja preparado,
por mais informações que você tenha, mesmo com o melhor
equipamento, tem variáveis que você não administra. A
pior pescaria da sua vida é aquela que você não planeja
nada e ela, obviamente por isso, não vai acontecer: ela é um
fracasso total!
Você deve escolher a pessoa que vai estar com você (eu acho que
ter um bom guia é básico), ter informação da natureza,
do peixe que você vai pescar, conhecer a região com suas variáveis
e características, tudo isso é fundamental. Se você se
preparou e por acaso não aconteceu, tudo bem. Foi uma variável
que você não administrou. Se eu não me preparei, essa
é a pior pescaria, por que não acontece nada por falha minha,
porque eu não me preparei para isso, fui um amador e fui de certa forma
um irresponsável, em envolvimento de tempo e de dinheiro sem nenhum
tipo de preparo.
Há também aquela em que pode acontecer algum tipo de acidente
com alguma pessoa, o que se torna desagradável, independente do resultado
da pescaria.
B.F. - Alguma vez aconteceu algo sério?
Rubinho - Nada muito sério, já tivemos tombos, situações de risco, mas nunca tivemos uma situação que passasse perto de uma situação fatal. Tivemos tombos, machucados, mas nunca tivemos, por exemplo, um acidente ofídico, um início de afogamento, enfim, nunca tivemos nada mais sério do que isto, mas qualquer situação deste tipo é desagradável numa pescaria, porque está envolvendo o ser humano.
B.F. - O pescador brasileiro já está mais consciente em
relação ao meio ambiente e ao pesque e solte?
Rubinho - Eu acho que a gente já tem um caminho percorrido.
Com certeza nos últimos dez anos, muita coisa mudou, mas não
resta dúvida que a gente ainda vai ter de andar muito, vai ter que
mexer muito com isso. Quando comecei a pescar em 90, eu recebia muitas ameaças
anônimas por carta por soltar peixes; no início, na televisão,
eu apanhei duas vezes pelo mesmo motivo. Me agrediram mesmo! Em todos os campeonatos
se matavam os peixes. Eu entrava num local, as pessoas davam risadas...
Passaram dez anos, hoje já temos exemplos da mudança: nos campeonatos
já se soltam peixes, o pesque e solte hoje é uma coisa aceitável
na cabeça de grande parte da população e muitos pescadores
se converteram. Hoje temos estruturas hoteleiras que estão em reservas
ecológicas de onde você não pode trazer nem matar peixes.
São locais onde há uma demanda turística bastante grande,
como é o caso do Taimassu, Barra Mansa do Rio Negro, enfim, muitos
desses lugares estão sendo bastante procurados isso é muito
bom.
Eu mesmo tenho um trabalho que envolve o turismo, levando grupos para pescar
e nos meus grupos ninguém mata peixes e nem por isso deixo de ter clientes.
Temos muito o que percorrer, temos ainda uma grande massa que ainda não
vê dessa forma, não só na matança de peixes, mas
como no meio ambiente como um todo.
B.F. - Essa mudança se deve à atuação dos
órgãos de proteção ao meio ambiente ou à
conscientização das pessoas?
Rubinho - Veja bem, eu acho que temos um processo que é
inevitável: nós estamos entrando num ciclo de história
em que se não cuidarmos do meio ambiente, nós teremos um problema
muito sério e um preço muito alto para pagar ao meio ambiente.
E isso é uma tendência mundial.
Eu acho que no Brasil nós poderíamos estar fazendo mais, mas
não podemos ficar culpando os outros. Vivíamos numa cultura
onde o extrativismo era inesgotável; durante a vida inteira nos foi
dada a informação de que a natureza era inesgotável,
os peixes eram inesgotáveis, podíamos extrair à vontade.
Mudar essa cultura, não é tão simples assim. O Brasil
é um país carente, em desenvolvimento, e é natural que
falte educação aqui dentro; tem muita gente que não sabe
ler e escrever, quer lá ter educação ambiental, então
é um trabalho de base que tem que ser feito.
Os veículos de comunicação, todos nós que estamos
envolvidos na pesca e as pessoas de maneira geral estão cumprindo sua
parte. Para mim é muito mais gritante, você ver um elemento que
é do setor da pesca (um dono de hotel, dono de loja ou um guia de pesca)
que ainda incentiva a matança de peixes. Isso para mim é mais
preocupante do que se eu olhar o Brasil como um todo, que por falta de cultura,
por falta de educação, tem problemas ambientais, pois é
um lado estrutural. Uma coisa que não entra em minha cabeça
é ver alguém que dependa do setor ainda estar promovendo esse
tipo de coisa.
B.F. - Se você fosse um secretário do meio ambiente, quais
seriam suas principais medidas?
Rubinho - Se eu fosse secretário do meio ambiente, continuaria
me dedicando bastante ao Programa Nacional da Pesca Amadora, onde tem sido
feito um trabalho bastante grande do ponto de vista de educação
do piloteiro, transformando-o num guia com muita informação.
Trabalharia em cima de uma nova legislação de pesca, porque
eu acho que a nossa é bastante arcaica, bastante ultrapassada, mas,
de qualquer forma, não há como você esquecer que hoje
tem muita gente que depende da pesca profissional por falta de opção
de emprego.
Deve-se achar alternativas, e não adianta vim com o discurso demagógico
de proibir a pesca comercial; isso é uma bobagem, porque tem gente
que morre de fome e precisa trabalhar. Eu buscaria fazer uma parceria entre
o desenvolvimento do turismo versus a absorção dessa mão
de obra, acoplado a um projeto de piscicultura nacional bastante grande, cooperativado,
que pudesse, também, absorver essa mão de obra, deixando, então,
a natureza para ser explorada de forma mais inteligente e rentável
dentro da pesca esportiva. Mas não dá para esquecer os problemas
sociais que você geraria num primeiro momento, então você
tem que trabalhar em cima disso.
B.F. - Quais são suas atividades atuais na área da pesca esportiva?
Rubinho - São diversas as minhas atividades. Uma delas
é a escola de pesca, a Escola Pescaventura, que trabalha com diversos
cursos como o de fly, iscas artificiais, arremesso de carretilha e molinete,
pesca de praia, biologia dos peixes, confecção de nós,
enfim, diversos cursos rápidos de um ou meio dia aonde uma gama de
instrutores fazem parte da escola, e onde a gente tenta passar, além
da parte técnica, conceitos de meio ambiente. A escola tem um ano e
já tem cerca de 500 alunos o que, para efeito de Brasil, é um
número bastante expressivo, dado ao pouco interesse do brasileiro no
aprendizado mais teórico, uma vez que é um povo mais autodidata
no aspecto da pesca, mas me deixa gratificado alcançar esse número
de alunos.
Outra atividade que temos hoje no Pescaventura é o turismo, onde fazemos
um trabalho de organização de grupos, num serviço diferenciado
onde vendemos uma viagem especial, até porque eu faço parte
de todas essas viagens; faço questão de acompanhar e organizar
todos os grupos, escolho o local e dou as dicas. No primeiro dia são
dadas todas as informações sobre as características regionais,
o porque daquele rio, qual é aquela bacia, quando ela foi formada,
suas fragilidades, que peixes vamos pescar, e nos outros dias a gente está
sempre disposto a orientar nos arremessos, aulas de iscas artificiais, aulas
de nós e sempre pescando um pouco para que a gente possa mostrar o
raciocínio um pouco mais elaborado da pesca (porque eu arremesso naquele
ponto, porque trabalhar aquela isca daquela forma, essa condição
de natureza esta me indicando o que em si, e sobre o peixe).
Uma outra atividade é o site Pescaventura que iniciou em janeiro desse
ano. É um site com muito dinamismo, porque tem uma revista virtual
dentro dele e que trocamos mensalmente. O site está tendo um resultado
bastante bom. Iniciamos em janeiro com cerca de 30 mil page views e já
estamos chegando perto dos 100 mil page views num crescimento que nos anima
bastante. Sua parte comercial ainda não está sendo trabalhada,
o que deve iniciar agora no segundo semestre, porque gostaríamos de
consolidar esse trabalho, ter o que falta dele antes de vendê-lo. Estamos
passando para outro provedor que é o UOL, o que deve alavancar um pouco
mais de acessos.
Além disso há eventos, palestras, feiras e uma participação
intensa no Programa Nacional de Pesca Amadora. Tenho dois projetos: um é
tentar dar ao piloteiro 20 horas de treinamento sobre relacionamento com clientes,
biologia, geografia, ecologia, primeiros socorros, iscar artificiais, pesque
e solte, noções de inglês, uma série de temas para
que ele melhore sua qualificação profissional e possa ser considerado
um guia de pesca.
Um outro programa dentro do Programa Nacional da Pesca Amadora, é um
projeto de oficinas infantis que começamos esse ano, onde crianças
de 6 a 12 anos passam por uma hora de aula ecológica. Pretendemos atingir
a meta de 100 mil crianças a cada doze meses. É uma meta ousada,
mas estamos caminhando nesse sentido, pois é um projeto importante.
Quando há eventos as escolas levam os alunos, mas quando não
há, trazemos a escola numa parceria com as secretarias de educação.
Se isso não é possível, um dia do mês vamos à
escola em parceria com elas mesmas buscando transmitir as informações
às crianças.
B.F. - Nesses anos todos de pesca esportiva, existe alguma pescaria ou projeto
não realizado?
Rubinho - Existe muitos. O Brasil é monstruoso, tem mais de um milhão e meio de rios, muitos inatingíveis e eu tenho muita vontade de andar ele todo, de conhecer diversos rios os quais eu ainda não tive acesso. Tenho vontade de conhecer mais sobre o exterior, como pescar na Austrália, Alasca, Nova Zelândia, pescar o Salmão na Rússia, o Pike no Canadá. São países que fazem parte do desejo de qualquer pescador e eu também faço parte dessa "brincadeira". Enfim a pescaria não acaba, é um mundo à parte.
B.F. - Também ocorre que um mesmo peixe, em lugares diferentes, requer
diferentes formas de pescar, não é?
Rubinho - Absolutamente correta sua observação. O peixe muda de comportamento no mesmo local, o que dirá em locais diferentes, onde você tem água, base alimentar, relevo diferentes; tudo isso altera com certeza o comportamento do peixe. Assim, é muito diferente você pescar um jaú no Pantanal e um jaú no Rio São Benedito. Não tem nada a haver um com o outro, são coisas completamente distintas.
B.F. - Que conselhos você daria para quem deseja ser um bom pescador
esportivo?
Rubinho - Uma palavra só que eu aprendi nesses anos todos:
é informação. E a certeza de que a gente não sabe
nada, e que cada dia a gente está aprendendo coisas novas com todas
as pessoas e em todas as oportunidades. Independente se essas pessoas têm
mais ou menos experiência, porque, com certeza, mesmo tendo menos experiência,
ela será diferente da sua e ganhará valor para você, e
eu acho que a informação é a melhor coisa que a gente
pode ter.
Eu não consigo ver o pescador evoluindo, sem que ele busque informação,
sem que ele saiba de natureza, meio ambiente, da espécie, comportamento,
o que é, e o que não é. A gente percebe que as pessoas
buscam muito pouco e obviamente com isso a pescaria se limita mais. A pesca
fica mais bonita à medida que eu tenho mais informação,
na medida que eu saiba o que estou fazendo, porque estou fazendo, que animal
estou pescando, porque estou pescando, como é que eu administro essas
variáveis comportamentais em função da informação
científica, biológica e de conhecimento geral, e eu acho que
nisso nós somos muito pobres. O pescador brasileiro ainda trabalha
com a variável sorte. O bom pescador é aquele que consegue quebrar
o fator sorte através do conhecimento. Essa é a chave e é
adquirida com leituras, conversas, pesquisas, etc.
B.F. - Em que tipo de ambiente você prefere pescar?
Rubinho - Se você me perguntar se há algum ambiente em que
eu não goste de pescar, eu vou dizer que não, gosto de pescar
em qualquer ambiente porque eu gosto de pescar; se você me perguntar
se eu prefiro água salgada ou água doce, vou dizer para você
que eu prefiro água doce. Eu acho mais divertido, eu vejo terra, tem
colorido, tem ave, tem praia, tem mata, tem bicho, tem planta, tem passarinho,
tem flor, se me sentir mal ou tiver algum problema é só encostar.
O mar é longe, é tudo prateado, é meio monótono,
tudo é da mesma cor embora muito emocionante, além da sensação
de insegurança que o mar gera pela sua imensidão; a gente é
"piquititico" nesse contexto todo, então eu acho que a água
doce me empolga mais do que a água salgada. Embora dificilmente nós
vamos ter oportunidade de algumas emoções como tem no mar em
relação ao tamanho dos peixes. Eu, por exemplo, tenho 6 marlins
azuis pescados, tendo o menor deles 150kg e o maior 350 kg. Isso jamais vai
acontecer na água doce, onde, hoje, se você hoje pegar um peixe
com mais de 50 kg é uma marca considerável. Eu já peguei,
mas é com certeza um percentual insignificante no volume dos peixes
pescados. Se tiver 2 ou 3 é muito, mas no mar essa é uma possibilidade
real, de fato, já peguei vários peixes acima de 50 kg como garoupas,
tubarões, etc.
B.F. - Você tem algum hobby além da pesca?
Rubinho - Eu tenho um hobby que é pescar. A pesca para
mim é um hobby, ela começa como um hobby e eu comecei a trabalhar
no meu hobby. Então eu me sinto um privilegiado de ter tido essa oportunidade
rara de você poder se dedicar, viver e trabalhar no seu hobby e isso
me encanta muito. A pesca me dá tudo: ela me dá esporte, natureza,
prazer, dinheiro, amigos, contatos, então ela meio que supriu as minhas
necessidades. Me falta tempo, sem dúvida nenhuma para desenvolver alguma
outra coisa, que eu também não sei qual seria. Gosto muito de
tênis, gosto de esportes de uma maneira geral, gosto de ler, de viajar
de cinema. Gostaria de me dedicar um pouco mais, mas falta tempo.
B.F. - Quais as dificuldades que ocorrem durante uma gravação de pescaria?
Rubinho - A maior dificuldade durante a gravação
de uma pescaria, é a sintonia entre o pescador e o camera man, o que,
para mim, é o ponto chave numa gravação. No momento em
que o camera man consegue saber o que eu penso pelo tom da minha voz e pelas
palavras que eu uso, ele acaba sendo cúmplice do meu trabalho, que,
assim, flui naturalmente. Quando essa sintonia não existe, fica uma
coisa bastante complexa porque cada um está andando num circuito diferente:
quando eu estou pela direita ele está pela esquerda, enquanto eu estou
com um peixe que pula ele está em mim ou achando que a situação
vai ocorrer em outro lugar. Essa sintonia é muito importante.
B.F. - Ser pescador ajuda o câmera durante as gravações?
Rubinho - Ajuda, mas nas não define. O que define é
a sintonia com o apresentador: ele tem que ser a sombra do apresentador, pela
expressão do meu rosto, ele sabe o que vai acontecer e ele se antecipa
a isso. Porque o bonito da gravação é você estar
presente na hora certa. A gravação posterior não resolve
seu problema; depois do salto acontecido, acabou a brincadeira, isso ocorre
em segundos, e não é fácil. Basta qualquer um tentar
tirar a foto de um peixe saltando e vai ver a dificuldade que é. Esse
processo é bonito quando se dá essa sintonia, quando eu deixo
de pensar na gravação.
Toda vez que eu estava com alguém em que eu precisava me preocupar,
era complicado. Quando eu me desligava da gravação e passava
a pescar de fato, a curtir a pescaria na certeza de que o câmera estava
em absoluta sintonia comigo, era como se ele estivesse dentro de meu olho
e aí a coisa fluía naturalmente.
B.F. - Você gostaria de mandar alguma mensagem para os pescadores?
Rubinho - Se eu pudesse mandar uma mensagem aos pescadores que
estão começando, eu acho que equilíbrio, respeito, humildade
são palavras muito importantes.
Equilíbrio na vida, equilíbrio no seu equipamento, com a natureza,
com o peixe e respeito com esse ambiente todo porque a gente precisa dele
e ele está sofrendo bastante e a gente pode segurar esse processo.
Respeito ao parceiro, ao companheiro, respeito ao grupo, respeito ao ser humano
de uma maneira geral e a humildade que é a melhor forma de aprendizado.
É você olhar para as pessoas e acreditar que todas tem alguma
coisa para lhe passar. No momento em que você acreditar que sabe tudo
de pescaria, eu acho que é um grande momento para uma mudança,
eu acho que chegou a hora de você mudar, não que eu acredite
que alguém saiba tudo, mas quando ele tem a sensação
de que sabe tudo, é hora de sair daquela atividade porque ela perdeu
o sentido de ser, a vida perdeu o sentido naquela atividade.
A pescaria é bonita porque cada dia é um dia novo, o comportamento
do peixe é uma coisa inusitada para a gente. Eu tenho visto muito isso
com o comportamento do peixe e isso é muito bonito. Faz com que você
se sinta iniciando toda vez, pensando "eu tenho que aprender mais, não
está dando, não é o suficiente, não estou dominando".
Quanto equipamento novo que chega, quanta técnica nova, e estou cansado
de ver pessoas comentarem "olha, esse peixe se pesca dessa maneira".
Essa resposta vale desde que ela tenha complemento do tipo: "esse peixe
se pesca dessa maneira, em tal lugar, aconteceu em tal dia, as condições
eram essas, naquela hora foi isso que aconteceu", pois é a única
forma dessas frases serem verdadeiras. Fora daí ela é uma inverdade
absoluta, porque isso não existe. Durante uma hora muda o comportamento
do peixe, muda sua escolha de equipamento, muda seu sistema de trabalho, muda
sua inter-relação com o meio ambiente. Acho que quando o pescador
consegue perceber um pouco essa sua fragilidade, o esporte fica mais rico,
mais bonito e ele passa a respeitar mais, até porque ele percebe a
dimensão da coisa, como é grande essa natureza!
B.F. - Rubinho, quando e onde você nasceu?
Rubinho - Nasci em 10 de junho de 1955, a minha família é de Jaú. Naquela época minha família morava numa fazenda e, como os recursos eram pequenos, eu vim nascer em São Paulo e voltei em seguida para Jaú. Depois Birigüi e por esse interior de São Paulo, que eu acho muito legal. Eu gosto de ser um interiorano, acho legal ser do interior, é uma coisa mais de terra, de natureza!
Entrevista dada em São Paulo em 3 de agosto de 2000
Para entrar em contato com Rubinho:
www.pescaventura.com.br
e-mail : rubinhopesca@uol.com.br
Reportagem e textos: Antonio Carlos Grandi e Ricardo A. Grandi