Entrevista com Rubens de Almeida Prado - agosto/2000
segunda parte
B.F. - Quais são suas atividades atuais na área da pesca esportiva?
Rubinho - São diversas as minhas atividades. Uma delas é a escola de pesca, a Escola Pescaventura, que trabalha com
diversos cursos como o de fly, iscas artificiais, arremesso de carretilha e molinete, pesca de praia, biologia dos peixes,
confecção de nós, enfim, diversos cursos rápidos de um ou meio dia aonde uma gama de instrutores fazem parte da escola, e
onde a gente tenta passar, além da parte técnica, conceitos de meio ambiente. A escola tem um ano e já tem cerca de 500
alunos o que, para efeito de Brasil, é um número bastante expressivo, dado ao pouco interesse do brasileiro no aprendizado
mais teórico, uma vez que é um povo mais autodidata no aspecto da pesca, mas me deixa gratificado alcançar esse número
de alunos.
Outra atividade que temos hoje no Pescaventura é o turismo, onde fazemos um trabalho de organização de grupos, num
serviço diferenciado onde vendemos uma viagem especial, até porque eu faço parte de todas essas viagens; faço questão de
acompanhar e organizar todos os grupos, escolho o local e dou as dicas. No primeiro dia são dadas todas as informações
sobre as características regionais, o porque daquele rio, qual é aquela bacia, quando ela foi formada, suas fragilidades, que
peixes vamos pescar, e nos outros dias a gente está sempre disposto a orientar nos arremessos, aulas de iscas artificiais, aulas
de nós e sempre pescando um pouco para que a gente possa mostrar o raciocínio um pouco mais elaborado da pesca
(porque eu arremesso naquele ponto, porque trabalhar aquela isca daquela forma, essa condição de natureza esta me
indicando o que em si, e sobre o peixe).
Uma outra atividade é o site Pescaventura que iniciou em janeiro desse ano. É um site com muito dinamismo, porque tem uma
revista virtual dentro dele e que trocamos mensalmente. O site está tendo um resultado bastante bom. Iniciamos em janeiro
com cerca de 30 mil page views e já estamos chegando perto dos 100 mil page views num crescimento que nos anima
bastante. Sua parte comercial ainda não está sendo trabalhada, o que deve iniciar agora no segundo semestre, porque
gostaríamos de consolidar esse trabalho, ter o que falta dele antes de vendê-lo. Estamos passando para outro provedor que é
o UOL, o que deve alavancar um pouco mais de acessos.
Além disso há eventos, palestras, feiras e uma participação intensa no Programa Nacional de Pesca Amadora. Tenho dois
projetos: um é tentar dar ao piloteiro 20 horas de treinamento sobre relacionamento com clientes, biologia, geografia,
ecologia, primeiros socorros, iscar artificiais, pesque e solte, noções de inglês, uma série de temas para que ele melhore sua
qualificação profissional e possa ser considerado um guia de pesca.
Um outro programa dentro do Programa Nacional da Pesca Amadora, é um projeto de oficinas infantis que começamos esse
ano, onde crianças de 6 a 12 anos passam por uma hora de aula ecológica. Pretendemos atingir a meta de 100 mil crianças a
cada doze meses. É uma meta ousada, mas estamos caminhando nesse sentido, pois é um projeto importante. Quando há
eventos as escolas levam os alunos, mas quando não há, trazemos a escola numa parceria com as secretarias de educação.
Se isso não é possível, um dia do mês vamos à escola em parceria com elas mesmas buscando transmitir as informações às
crianças.
B.F. - Nesses anos todos de pesca esportiva, existe alguma pescaria ou projeto não realizado?
Rubinho - Existe muitos. O Brasil é monstruoso, tem mais de um milhão e meio de rios, muitos inatingíveis e eu tenho muita vontade de andar ele todo, de conhecer diversos rios os quais eu ainda não tive acesso. Tenho vontade de conhecer mais sobre o exterior, como pescar na Austrália, Alasca, Nova Zelândia, pescar o Salmão na Rússia, o Pike no Canadá. São países que fazem parte do desejo de qualquer pescador e eu também faço parte dessa "brincadeira". Enfim a pescaria não acaba, é um mundo à parte.
B.F. - Também ocorre que um mesmo peixe, em lugares diferentes, requer diferentes formas de pescar, não é?
Rubinho - Absolutamente correta sua observação. O peixe muda de comportamento no mesmo local, o que dirá em locais diferentes, onde você tem água, base alimentar, relevo diferentes; tudo isso altera com certeza o comportamento do peixe. Assim, é muito diferente você pescar um jaú no Pantanal e um jaú no Rio São Benedito. Não tem nada a haver um com o outro, são coisas completamente distintas.
B.F. - Que conselhos você daria para quem deseja ser um bom pescador esportivo?
Rubinho - Uma palavra só que eu aprendi nesses anos todos: é informação. E a certeza de que a gente não sabe nada, e que
cada dia a gente está aprendendo coisas novas com todas as pessoas e em todas as oportunidades. Independente se essas
pessoas têm mais ou menos experiência, porque, com certeza, mesmo tendo menos experiência, ela será diferente da sua e
ganhará valor para você, e eu acho que a informação é a melhor coisa que a gente pode ter.
Eu não consigo ver o pescador evoluindo, sem que ele busque informação, sem que ele saiba de natureza, meio ambiente, da
espécie, comportamento, o que é, e o que não é. A gente percebe que as pessoas buscam muito pouco e obviamente com
isso a pescaria se limita mais. A pesca fica mais bonita à medida que eu tenho mais informação, na medida que eu saiba o que
estou fazendo, porque estou fazendo, que animal estou pescando, porque estou pescando, como é que eu administro essas
variáveis comportamentais em função da informação científica, biológica e de conhecimento geral, e eu acho que nisso nós
somos muito pobres. O pescador brasileiro ainda trabalha com a variável sorte. O bom pescador é aquele que consegue
quebrar o fator sorte através do conhecimento. Essa é a chave e é adquirida com leituras, conversas, pesquisas, etc.
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| "Se eu pudesse mandar uma mensagem aos pescadores que estão começando, eu acho que equilíbrio, respeito e humildade são palavras muito importantes." |
B.F. - Em que tipo de ambiente você prefere pescar?
Rubinho - Se você me perguntar se há algum ambiente em que eu não goste de pescar, eu vou dizer que não, gosto de pescar
em qualquer ambiente porque eu gosto de pescar; se você me perguntar se eu prefiro água salgada ou água doce, vou dizer
para você que eu prefiro água doce. Eu acho mais divertido, eu vejo terra, tem colorido, tem ave, tem praia, tem mata, tem
bicho, tem planta, tem passarinho, tem flor, se me sentir mal ou tiver algum problema é só encostar. O mar é longe, é tudo
prateado, é meio monótono, tudo é da mesma cor embora muito emocionante, além da sensação de insegurança que o mar
gera pela sua imensidão; a gente é "piquititico" nesse contexto todo, então eu acho que a água doce me empolga mais do que
a água salgada. Embora dificilmente nós vamos ter oportunidade de algumas emoções como tem no mar em relação ao
tamanho dos peixes. Eu, por exemplo, tenho 6 marlins azuis pescados, tendo o menor deles 150kg e o maior 350 kg. Isso
jamais vai acontecer na água doce, onde, hoje, se você hoje pegar um peixe com mais de 50 kg é uma marca considerável.
Eu já peguei, mas é com certeza um percentual insignificante no volume dos peixes pescados. Se tiver 2 ou 3 é muito, mas no
mar essa é uma possibilidade real, de fato, já peguei vários peixes acima de 50 kg como garoupas, tubarões, etc.
B.F. - Você tem algum hobby além da pesca?
Rubinho - Eu tenho um hobby que é pescar. A pesca para mim é um hobby, ela começa como um hobby e eu comecei a
trabalhar no meu hobby. Então eu me sinto um privilegiado de ter tido essa oportunidade rara de você poder se dedicar, viver
e trabalhar no seu hobby e isso me encanta muito. A pesca me dá tudo: ela me dá esporte, natureza, prazer, dinheiro, amigos,
contatos, então ela meio que supriu as minhas necessidades. Me falta tempo, sem dúvida nenhuma para desenvolver alguma
outra coisa, que eu também não sei qual seria. Gosto muito de tênis, gosto de esportes de uma maneira geral, gosto de ler, de
viajar de cinema. Gostaria de me dedicar um pouco mais, mas falta tempo.
B.F. - Quais as dificuldades que ocorrem durante uma gravação de pescaria?
Rubinho - A maior dificuldade durante a gravação de uma pescaria, é a sintonia entre o pescador e o camera man, o que,
para mim, é o ponto chave numa gravação. No momento em que o camera man consegue saber o que eu penso pelo tom da
minha voz e pelas palavras que eu uso, ele acaba sendo cúmplice do meu trabalho, que, assim, flui naturalmente. Quando essa
sintonia não existe, fica uma coisa bastante complexa porque cada um está andando num circuito diferente: quando eu estou
pela direita ele está pela esquerda, enquanto eu estou com um peixe que pula ele está em mim ou achando que a situação vai
ocorrer em outro lugar. Essa sintonia é muito importante.
B.F. - Ser pescador ajuda o câmera durante as gravações?
Rubinho - Ajuda, mas nas não define. O que define é a sintonia com o apresentador: ele tem que ser a sombra do
apresentador, pela expressão do meu rosto, ele sabe o que vai acontecer e ele se antecipa a isso. Porque o bonito da
gravação é você estar presente na hora certa. A gravação posterior não resolve seu problema; depois do salto acontecido,
acabou a brincadeira, isso ocorre em segundos, e não é fácil. Basta qualquer um tentar tirar a foto de um peixe saltando e vai
ver a dificuldade que é. Esse processo é bonito quando se dá essa sintonia, quando eu deixo de pensar na gravação.
Toda vez que eu estava com alguém em que eu precisava me preocupar, era complicado. Quando eu me desligava da
gravação e passava a pescar de fato, a curtir a pescaria na certeza de que o câmera estava em absoluta sintonia comigo, era
como se ele estivesse dentro de meu olho e aí a coisa fluía naturalmente.
B.F. - Você gostaria de mandar alguma mensagem para os pescadores?
Rubinho - Se eu pudesse mandar uma mensagem aos pescadores que estão começando, eu acho que equilíbrio, respeito,
humildade são palavras muito importantes.
Equilíbrio na vida, equilíbrio no seu equipamento, com a natureza, com o peixe e respeito com esse ambiente todo porque a
gente precisa dele e ele está sofrendo bastante e a gente pode segurar esse processo.
Respeito ao parceiro, ao companheiro, respeito ao grupo, respeito ao ser humano de uma maneira geral e a humildade que é
a melhor forma de aprendizado. É você olhar para as pessoas e acreditar que todas tem alguma coisa para lhe passar. No
momento em que você acreditar que sabe tudo de pescaria, eu acho que é um grande momento para uma mudança, eu acho
que chegou a hora de você mudar, não que eu acredite que alguém saiba tudo, mas quando ele tem a sensação de que sabe
tudo, é hora de sair daquela atividade porque ela perdeu o sentido de ser, a vida perdeu o sentido naquela atividade.
A pescaria é bonita porque cada dia é um dia novo, o comportamento do peixe é uma coisa inusitada para a gente. Eu tenho
visto muito isso com o comportamento do peixe e isso é muito bonito. Faz com que você se sinta iniciando toda vez,
pensando "eu tenho que aprender mais, não está dando, não é o suficiente, não estou dominando". Quanto equipamento novo
que chega, quanta técnica nova, e estou cansado de ver pessoas comentarem "olha, esse peixe se pesca dessa maneira". Essa
resposta vale desde que ela tenha complemento do tipo: "esse peixe se pesca dessa maneira, em tal lugar, aconteceu em tal
dia, as condições eram essas, naquela hora foi isso que aconteceu", pois é a única forma dessas frases serem verdadeiras.
Fora daí ela é uma inverdade absoluta, porque isso não existe. Durante uma hora muda o comportamento do peixe, muda sua
escolha de equipamento, muda seu sistema de trabalho, muda sua inter-relação com o meio ambiente. Acho que quando o
pescador consegue perceber um pouco essa sua fragilidade, o esporte fica mais rico, mais bonito e ele passa a respeitar mais,
até porque ele percebe a dimensão da coisa, como é grande essa natureza!
B.F. - Rubinho, quando e onde você nasceu?
Rubinho - Nasci em 10 de junho de 1955, a minha família é de Jaú. Naquela época minha família morava numa fazenda e, como os recursos eram pequenos, eu vim nascer em São Paulo e voltei em seguida para Jaú. Depois Birigüi e por esse interior de São Paulo, que eu acho muito legal. Eu gosto de ser um interiorano, acho legal ser do interior, é uma coisa mais de terra, de natureza!

Entrevista dada em São Paulo em 3 de agosto de 2000
Para entrar em contato com Rubinho:
site: www.pescaventura.com.br
e-mail : rubinhopesca@uol.com.br
Reportagem e textos: Antonio Carlos Grandi e Ricardo A. Grandi
Fotos: Marco Antonio Tonon
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